quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
PENSAMENTO(5)
"Recessão é quando o vizinho perde o seu emprego,
depressão quando perdes o teu,
e recuperação quando Sócrates perder o dele.
depressão quando perdes o teu,
e recuperação quando Sócrates perder o dele.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
A CAIXA QUE MUDOU O MUNDO
Chama-se "Agora é que conta", passa na TVI" e é apresentado por Fátima Lopes.
O programa começa com dezenas de pessoas a agitar uns papéis.
Os papéis são contas por pagar. Reparações em casa, prestações do carro, contas da electricidade ou de telefone. A maioria dos concorrentes parece ter, por o que diz, muito pouca folga financeira.
E a simpática Fátima, sempre pronta a ajudar em troca de umas figuras mais ou menos patéticas para o País poder acompanhar, presta-se a pagar duzentos ou trezentos euros de dívida.
"Nos tempos que correm", como diz a apresentadora - e "os tempos que correm" quer sempre dizer crise -, a coisa sabe bem.
No entretenimento televisivo, o grotesco é quase sempre transvestido de boas intenções.
Os concorrentes prestam-se a dar comida à boca a familiares enquanto a cadeira onde estão sentados agita, rebolam no chão dentro de espumas enormes ou tentam apanhar bolas de ping-pong no ar. Apesar da indigência absoluta do programa, nada disto é novo. O que é realmente novo são as contas por pagar transformadas num concurso "divertido".
Ao ver aquela triste imagem e a forma como as televisões conseguem transformar a tristeza em entretenimento, não consigo deixar de sentir que esta é a "beleza" do Capitalismo:
Tudo se vende, até as pequenas desgraças quotidianas de quem não consegue comprar o que se vende.
Houve um tempo em que gente corajosa se juntava para lutar por uma vida melhor e combater quem os queria na miséria. E ainda há muitos que não desistiram. Mas a televisão conseguiu de uma forma extraordinariamente eficaz o que os séculos de repressão nem sonharam:
Pôr a maioria a entreter-se com a sua própria desgraça.
E o canal ainda ganha uns cobres com isso.
Diz-se que esta caixa mudou o Mundo.
Sim: consegue pôr tudo a render. Até as consequências da maior crise em muitas décadas.
Entretanto a apresentadora recebe 40.000€ por mês.
Foi este o valor da transferência da SIC para a TVI. Uma proposta irrecusável segundo palavras da própria.
A pobre da Fátima Lopes só ganha 1290 euros por dia!!!.
Brincando com miséria dos outros, pobre povo português, sem alternativas, mas miseravelmente felizes.
Este artigo de Daniel Oliveira é sobre aquilo que nunca vi na TVI, mas que se visse reagiria, também, com indignação. É algo de escabroso que se houvesse um pouco de decência já não estaria a ser transmitido. Usar os desgraçados é um abuso intolerável, é brincar com as pessoas e a sua miséria.
PAGAR AS DÍVIDAS e fazer disso um espectáculo é obsceno.
A TVI torna-se, assim, uma obscenidade !...
O programa começa com dezenas de pessoas a agitar uns papéis.
Os papéis são contas por pagar. Reparações em casa, prestações do carro, contas da electricidade ou de telefone. A maioria dos concorrentes parece ter, por o que diz, muito pouca folga financeira.
E a simpática Fátima, sempre pronta a ajudar em troca de umas figuras mais ou menos patéticas para o País poder acompanhar, presta-se a pagar duzentos ou trezentos euros de dívida.
"Nos tempos que correm", como diz a apresentadora - e "os tempos que correm" quer sempre dizer crise -, a coisa sabe bem.
No entretenimento televisivo, o grotesco é quase sempre transvestido de boas intenções.
Os concorrentes prestam-se a dar comida à boca a familiares enquanto a cadeira onde estão sentados agita, rebolam no chão dentro de espumas enormes ou tentam apanhar bolas de ping-pong no ar. Apesar da indigência absoluta do programa, nada disto é novo. O que é realmente novo são as contas por pagar transformadas num concurso "divertido".
Ao ver aquela triste imagem e a forma como as televisões conseguem transformar a tristeza em entretenimento, não consigo deixar de sentir que esta é a "beleza" do Capitalismo:
Tudo se vende, até as pequenas desgraças quotidianas de quem não consegue comprar o que se vende.
Houve um tempo em que gente corajosa se juntava para lutar por uma vida melhor e combater quem os queria na miséria. E ainda há muitos que não desistiram. Mas a televisão conseguiu de uma forma extraordinariamente eficaz o que os séculos de repressão nem sonharam:
Pôr a maioria a entreter-se com a sua própria desgraça.
E o canal ainda ganha uns cobres com isso.
Diz-se que esta caixa mudou o Mundo.
Sim: consegue pôr tudo a render. Até as consequências da maior crise em muitas décadas.
Entretanto a apresentadora recebe 40.000€ por mês.
Foi este o valor da transferência da SIC para a TVI. Uma proposta irrecusável segundo palavras da própria.
A pobre da Fátima Lopes só ganha 1290 euros por dia!!!.
Brincando com miséria dos outros, pobre povo português, sem alternativas, mas miseravelmente felizes.
Este artigo de Daniel Oliveira é sobre aquilo que nunca vi na TVI, mas que se visse reagiria, também, com indignação. É algo de escabroso que se houvesse um pouco de decência já não estaria a ser transmitido. Usar os desgraçados é um abuso intolerável, é brincar com as pessoas e a sua miséria.
PAGAR AS DÍVIDAS e fazer disso um espectáculo é obsceno.
A TVI torna-se, assim, uma obscenidade !...
domingo, 9 de janeiro de 2011
TEXTO9 PUBLICADO NO J.N,
Texto do Oscar Mascarenhas, publicado no JN
O tremeliques palavroso - Ontem
Tive imensa sorte, na minha juventude, por nunca haver sido confrontado
com a obrigação de assinar a declaração de «conformidade» do famigerado
decreto 27003, exigido pela ditadura. Seria para mim angustioso sujeitar a
honra a uma mentira, mas confesso que, se fosse obrigado, assinaria.
Ninguém via heroísmo redentor nessa estóica recusa.
Por bênção dos deuses, o maldito decreto foi revogado por Marcello Caetano
antes de a situação se me colocar. Dessa estou «imaculado», mas não atiro
um grão de areia a quem firmou de cruz aquele papel: o cobarde não foi
quem assinou, cobarde era quem obrigava a assinar.
Por isso, não liguei muito à notícia da declaração assinada de Cavaco
Silva à PIDE. Só despertei da modorra, quando ouvi o candidato dizer que
não se lembrava do episódio. Aí, pára: ou o cavalheiro mente
desavergonhadamente, ou sofre de um Alzheimer muito adiantado a justificar
um Conselho de Estado para o interditar.
Ninguém, mas ninguém mesmo, se esquece de quando foi obrigado a ir à PIDE:
fica na memória para sempre. É que esta, para mais, foi uma declaração
presencial, certificada na hora pelo chefe de brigada da Pide e por isso
dispensada de reconhecimento notarial. Tem ele o despudor de dizer que não
se lembra? Abram a ala VIP da psiquiatria, por favor!
A mentira (ou doença incurável do candidato) tornou-me mais atento. O que
me chamou mais a atenção foi a anotação final, num espaço de
preenchimento facultativo, a dizer que «não priva» com a segunda mulher do sogro,
dando o nome completo da senhora.
Ah, isso é demais - e nada tem a ver com «tentativas de o ligar ao
anterior regime», como Cavaco se lamuriou. Nada! A ligação é só à sua
têmpera, à sua capacidade ou não de enfrentar situações difíceis. Toda a
gente de bem que conheci, desafecta ou mesmo afecta ao salazarismo,
respeitava este princípio: à polícia (e então à secreta!) só se diz o mínimo. Era
questão de fidalguia, de sobranceria, de desprezo. Não era exigido a Cavaco que
escrevesse o nome da segunda mulher do sogro e muito menos que declarasse
que não privava com ela. Qualquer um com dois dedos de siso saberia que
isso iria pôr a PIDE de sobreaviso contra a senhora - ou então queria mesmo denunciá-la.
Cavaco não seria tão reles: apenas estaria tão tremeliques que escreveu
até o que não queria, coitado. E logo ele que diz que há palavras de mais
na política. Lá sabe do que fala, quando falou, à PIDE, do que não devia
ter falado.
A desgraça é que o tremeliques tem ainda menos cura que o Alzheimer.
O tremeliques palavroso - Ontem
Tive imensa sorte, na minha juventude, por nunca haver sido confrontado
com a obrigação de assinar a declaração de «conformidade» do famigerado
decreto 27003, exigido pela ditadura. Seria para mim angustioso sujeitar a
honra a uma mentira, mas confesso que, se fosse obrigado, assinaria.
Ninguém via heroísmo redentor nessa estóica recusa.
Por bênção dos deuses, o maldito decreto foi revogado por Marcello Caetano
antes de a situação se me colocar. Dessa estou «imaculado», mas não atiro
um grão de areia a quem firmou de cruz aquele papel: o cobarde não foi
quem assinou, cobarde era quem obrigava a assinar.
Por isso, não liguei muito à notícia da declaração assinada de Cavaco
Silva à PIDE. Só despertei da modorra, quando ouvi o candidato dizer que
não se lembrava do episódio. Aí, pára: ou o cavalheiro mente
desavergonhadamente, ou sofre de um Alzheimer muito adiantado a justificar
um Conselho de Estado para o interditar.
Ninguém, mas ninguém mesmo, se esquece de quando foi obrigado a ir à PIDE:
fica na memória para sempre. É que esta, para mais, foi uma declaração
presencial, certificada na hora pelo chefe de brigada da Pide e por isso
dispensada de reconhecimento notarial. Tem ele o despudor de dizer que não
se lembra? Abram a ala VIP da psiquiatria, por favor!
A mentira (ou doença incurável do candidato) tornou-me mais atento. O que
me chamou mais a atenção foi a anotação final, num espaço de
preenchimento facultativo, a dizer que «não priva» com a segunda mulher do sogro,
dando o nome completo da senhora.
Ah, isso é demais - e nada tem a ver com «tentativas de o ligar ao
anterior regime», como Cavaco se lamuriou. Nada! A ligação é só à sua
têmpera, à sua capacidade ou não de enfrentar situações difíceis. Toda a
gente de bem que conheci, desafecta ou mesmo afecta ao salazarismo,
respeitava este princípio: à polícia (e então à secreta!) só se diz o mínimo. Era
questão de fidalguia, de sobranceria, de desprezo. Não era exigido a Cavaco que
escrevesse o nome da segunda mulher do sogro e muito menos que declarasse
que não privava com ela. Qualquer um com dois dedos de siso saberia que
isso iria pôr a PIDE de sobreaviso contra a senhora - ou então queria mesmo denunciá-la.
Cavaco não seria tão reles: apenas estaria tão tremeliques que escreveu
até o que não queria, coitado. E logo ele que diz que há palavras de mais
na política. Lá sabe do que fala, quando falou, à PIDE, do que não devia
ter falado.
A desgraça é que o tremeliques tem ainda menos cura que o Alzheimer.
A HONESTIDADE DE CAVACO
NB-NãCavaco, o turbo-professor e o seu processo disciplinar
Publicado em 6 de Janeiro de 2011 por João José Cardoso
Conta Luis Grave Rodrigues:
Naqueles longínquos anos 80 o Prof. Aníbal Cavaco Silva era docente na Universidade Nova de Lisboa.
Mas o prestígio académico e político que entretanto granjeara (recorde-se que havia já sido ministro das Finanças do 1º Governo da A.D.) cedo levaram a que fosse igualmente convidado para dar aulas na Universidade Católica.
Ora, embora esta acumulação de funções muito certamente nunca lhe tivesse suscitado dúvidas ou sequer provocado quaisquer enganos, o que é facto é que, pelos vistos, ela se revelou excessivamente onerosa para o Prof. Cavaco Silva.
Como é natural, as faltas às aulas – obviamente às aulas da Universidade Nova – começaram a suceder-se a um ritmo cada vez mais intolerável para os órgãos directivos da Universidade.
A tal ponto que não restou outra alternativa ao Reitor da Universidade Nova, na ocasião o Prof. Alfredo de Sousa, que não instaurar ao Prof. Aníbal Cavaco Silva um processo disciplinar conducente ao seu despedimento por acumulação de faltas injustificadas.
Instruído o processo disciplinar na Universidade Nova, foi o mesmo devidamente encaminhado para o Ministério da Educação a quem, como é bom de ver, competia uma decisão definitiva sobre o assunto.
Na ocasião era ministro da Educação o Prof. João de Deus Pinheiro.
E onde foi parar o dito processo disciplinar? ao limbo, ao lixo, ao arquivo? Pode ler o resto desta interessante narrativa. Eu finalmente percebi a espantosa carreira política de Deus Pinheiro, a maior anedota que passou pelo Palácio das Necessidades nas últimas décadas. E mais uma vez confirmei que Cavaco Silva quando está sozinho é o mais honesto dos honestos presentes naquela sala.
Esta entrada foi publicada em Eleições Presidenciais com as tags cavaco silva, processo disciplinar. ligação permanente.
← escritores chilenos – Pablo NerudaAvisem a JP Sá Couto: →o tem nada a ver com o BPN
Publicado em 6 de Janeiro de 2011 por João José Cardoso
Conta Luis Grave Rodrigues:
Naqueles longínquos anos 80 o Prof. Aníbal Cavaco Silva era docente na Universidade Nova de Lisboa.
Mas o prestígio académico e político que entretanto granjeara (recorde-se que havia já sido ministro das Finanças do 1º Governo da A.D.) cedo levaram a que fosse igualmente convidado para dar aulas na Universidade Católica.
Ora, embora esta acumulação de funções muito certamente nunca lhe tivesse suscitado dúvidas ou sequer provocado quaisquer enganos, o que é facto é que, pelos vistos, ela se revelou excessivamente onerosa para o Prof. Cavaco Silva.
Como é natural, as faltas às aulas – obviamente às aulas da Universidade Nova – começaram a suceder-se a um ritmo cada vez mais intolerável para os órgãos directivos da Universidade.
A tal ponto que não restou outra alternativa ao Reitor da Universidade Nova, na ocasião o Prof. Alfredo de Sousa, que não instaurar ao Prof. Aníbal Cavaco Silva um processo disciplinar conducente ao seu despedimento por acumulação de faltas injustificadas.
Instruído o processo disciplinar na Universidade Nova, foi o mesmo devidamente encaminhado para o Ministério da Educação a quem, como é bom de ver, competia uma decisão definitiva sobre o assunto.
Na ocasião era ministro da Educação o Prof. João de Deus Pinheiro.
E onde foi parar o dito processo disciplinar? ao limbo, ao lixo, ao arquivo? Pode ler o resto desta interessante narrativa. Eu finalmente percebi a espantosa carreira política de Deus Pinheiro, a maior anedota que passou pelo Palácio das Necessidades nas últimas décadas. E mais uma vez confirmei que Cavaco Silva quando está sozinho é o mais honesto dos honestos presentes naquela sala.
Esta entrada foi publicada em Eleições Presidenciais com as tags cavaco silva, processo disciplinar. ligação permanente.
← escritores chilenos – Pablo NerudaAvisem a JP Sá Couto: →o tem nada a ver com o BPN
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
OS SACRIFICIOS DE MEXIA
Os sacrifícios de Mexia
Os sacrifícios de Mexia
António Mexia sempre defendeu menos Estado e mais sacrifícios para
garantir o futuro do País. Estado nunca lhe faltou. Sacrifícios é coisa
que não parece conhecer.
Daniel Oliveira (www.expresso.pt)
A não perder os vídeos sobre os golos no futebol
"Terão que se assumir sacrifícios no curto prazo por forma a obter
vantagens no médio prazo, devendo esta geração evitar carregar
inutilmente as próximas." São estas as palavras de António Mexia que se
podem ler no site dos liberais caseiros do Compromisso Portugal. Só que,
como de costume, quando Mexia diz que se terão de assumir sacrifícios
não está a falar dele próprio.
Soubemos esta semana que Mexia recebe 3,3 milhões por ano. O mesmo que
500 trabalhadores com o salários mínimo nacional. Aquele salário que,
por ser aumentado em vinte euros, iria, garantiram as associações
patronais, rebentar com a nossa competitividade. Recordo o que aqui já
escrevi: os nossos gestores recebem em média 32 vezes mais do que os
trabalhadores mais mal pagos das suas empresas. Na Alemanha a média é 10
vezes mais. Querem mesmo falar dos salários e da competitividade das
nossas empresas?
Dirão: a EDP é uma empresa privada. Não temos nada a ver com isso.
Acontece que é uma empresa privada que foi pública e onde o Estado
continua a ser o maior accionista. E que vive em regime de monopólio. O
ordenado de Mexia é pago pelos consumidores que não podem decidir mudar
de empresa. E, recorde-se, o preço da electricidade doméstica em
Portugal é, em termos absolutos, superior ao da média comunitária.
Na factura lá estão o salário e prémios de António Mexia.
E acontece que o currículo de António Mexia, apesar de se tratar de um
convicto liberal sempre a pedir menos Estado, é bastante esclarecedor:
foi Adjunto do Secretário de Estado do Comércio Externo, Vice-Presidente
do Conselho de Administração do ICEP, Presidente dos Conselhos de
Administração da Gás de Portugal e da Transgás, Vice-Presidente da Galp
Energia, Presidente Executivo da Galp Energia, Presidente dos Conselhos
de Administração da Petrogal, Ministro das Obras Públicas, Transportes e
Comunicações, Presidente do Conselho Geral da Ambelis e representante do
Governo Português junto da União Europeia no Grupo de trabalho para o
desenvolvimento das redes transeuropeias. Agora está na EDP.
Tirando a sua vida académica e uma passagem pelo Banco Espírito Santo,
trabalhou sempre, seguramente contrariado, para o Estado ou para
empresas participadas pelo Estado. E quase sempre por escolha política.
Este homem, que fez a sua vida profissional à boleia da política e do
Estado, quer menos Estado. Faz-se pagar como os 200 que mais recebem nos
EUA e exige sacrifícios a bem das próximas gerações.
E foi ele mesmo, sempre lesto a gritar pelo mérito, que contratou, se
bem se recordam, Pedro Santana Lopes (seu ex-primeiro-ministro) para
assessor jurídico da EDP. Porque os amigos são para as ocasiões.
E fez este senhor parte desse patusco encontro de gestores que exigiu,
em 2006, o congelamento salarial dos funcionários públicos. Sacrifícios,
já se sabe, têm ser feitos
São estes homens, transformados pela imprensa em oráculos da Nação, que
nos dão lições de competitividade, meritocracia e estoicismo para vencer
as adversidades. Falam de cátedra. Mas não sabem do que falam.
Os sacrifícios de Mexia
António Mexia sempre defendeu menos Estado e mais sacrifícios para
garantir o futuro do País. Estado nunca lhe faltou. Sacrifícios é coisa
que não parece conhecer.
Daniel Oliveira (www.expresso.pt)
A não perder os vídeos sobre os golos no futebol
"Terão que se assumir sacrifícios no curto prazo por forma a obter
vantagens no médio prazo, devendo esta geração evitar carregar
inutilmente as próximas." São estas as palavras de António Mexia que se
podem ler no site dos liberais caseiros do Compromisso Portugal. Só que,
como de costume, quando Mexia diz que se terão de assumir sacrifícios
não está a falar dele próprio.
Soubemos esta semana que Mexia recebe 3,3 milhões por ano. O mesmo que
500 trabalhadores com o salários mínimo nacional. Aquele salário que,
por ser aumentado em vinte euros, iria, garantiram as associações
patronais, rebentar com a nossa competitividade. Recordo o que aqui já
escrevi: os nossos gestores recebem em média 32 vezes mais do que os
trabalhadores mais mal pagos das suas empresas. Na Alemanha a média é 10
vezes mais. Querem mesmo falar dos salários e da competitividade das
nossas empresas?
Dirão: a EDP é uma empresa privada. Não temos nada a ver com isso.
Acontece que é uma empresa privada que foi pública e onde o Estado
continua a ser o maior accionista. E que vive em regime de monopólio. O
ordenado de Mexia é pago pelos consumidores que não podem decidir mudar
de empresa. E, recorde-se, o preço da electricidade doméstica em
Portugal é, em termos absolutos, superior ao da média comunitária.
Na factura lá estão o salário e prémios de António Mexia.
E acontece que o currículo de António Mexia, apesar de se tratar de um
convicto liberal sempre a pedir menos Estado, é bastante esclarecedor:
foi Adjunto do Secretário de Estado do Comércio Externo, Vice-Presidente
do Conselho de Administração do ICEP, Presidente dos Conselhos de
Administração da Gás de Portugal e da Transgás, Vice-Presidente da Galp
Energia, Presidente Executivo da Galp Energia, Presidente dos Conselhos
de Administração da Petrogal, Ministro das Obras Públicas, Transportes e
Comunicações, Presidente do Conselho Geral da Ambelis e representante do
Governo Português junto da União Europeia no Grupo de trabalho para o
desenvolvimento das redes transeuropeias. Agora está na EDP.
Tirando a sua vida académica e uma passagem pelo Banco Espírito Santo,
trabalhou sempre, seguramente contrariado, para o Estado ou para
empresas participadas pelo Estado. E quase sempre por escolha política.
Este homem, que fez a sua vida profissional à boleia da política e do
Estado, quer menos Estado. Faz-se pagar como os 200 que mais recebem nos
EUA e exige sacrifícios a bem das próximas gerações.
E foi ele mesmo, sempre lesto a gritar pelo mérito, que contratou, se
bem se recordam, Pedro Santana Lopes (seu ex-primeiro-ministro) para
assessor jurídico da EDP. Porque os amigos são para as ocasiões.
E fez este senhor parte desse patusco encontro de gestores que exigiu,
em 2006, o congelamento salarial dos funcionários públicos. Sacrifícios,
já se sabe, têm ser feitos
São estes homens, transformados pela imprensa em oráculos da Nação, que
nos dão lições de competitividade, meritocracia e estoicismo para vencer
as adversidades. Falam de cátedra. Mas não sabem do que falam.
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