sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

CARTA AO PEDRO

MENSAGEM DE RETRIBUIÇÃO AO PEDRO E À LAURA

por Nuno Barradas a Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2012 às 16:08 ·
Caro Pedro,
Antes de mais os meus sinceros agradecimentos pela amabilidade que tiveste em prescindir dos poucos momentos em que não tens que carregar o país às costas, para pensar um pouco em nós e nos nossos natais.
Retrataste com a clarividência de poucos a forma penosa como atravessamos esta quadra que deveria ser de alegria, amor e união. És de facto um ser iluminado e somos sem dúvida privilegiados em ter ao leme da nossa nau um ser humano de tão refinada cepa.
Gostava também de ser interlocutor de alguém que queria aproveitar o espírito de boa vontade que a quadra proporciona para te pedir sinceras desculpas…a minha mãe.
A minha mãe é uma senhora de 70 anos, que usufruindo de uma escandalosa pensão de mil e poucos euros, se sente responsável pelo miserável natal de todos os seus concidadãos. Ela não consegue compreender onde falhou, mas está convicta de que o fez…doutra forma não terias afirmado o que afirmaste. Tentarei resumir o seu percurso de vida para que nos ajudes a identificar a mácula.
A minha mãe nasceu em Alcácer do Sal começou a trabalhar com 12 ou 13 anos…já não se recorda muito bem. Apanhava ganchos de cabelo num salão de cabeleireiro, e simultaneamente aprendia umas coisas deste ofício. Casou jovem e mudou-se para a cidade em busca de melhor vida. Sem opções de emprego a minha mãe nunca se acomodou e fazia alguns trabalhos de cabeleireira ao domicilio…nunca se queixou…foi mãe jovem e sempre achou que por esse facto era a mulher mais afortunada do mundo. Arranjou depois emprego num refeitório de uma grande fábrica. Nunca teve qualquer tipo de formação mas a cozinha era a sua grande paixão.
Depois de alguns anos no refeitório aventurou-se no seu grande sonho…ter um negócio próprio de restauração. Quis o destino que o sonho se concretizasse no ano de 1974…lembras-te 1974? O ano em que te tornaste livre? Tinhas o quê? 10 anos?
Pois é…o sonho da minha mãe tem a idade da democracia.
O sonho nasceu pequeno, com pouco mais de 3 ou 4 colaboradoras. Com muita dificuldade, muito trabalho e muitas noites sem dormir foi crescendo e chegou a dar trabalho a mais de 20 pessoas. A minha mãe tem a 4ª classe.
Tu já criaste empregos Pedro? Quer dizer…criar mesmo…investir e arriscar o que é teu…telefonemas para o Relvas a pedir qualquer coisa para uma amiga da Laura não conta como criar emprego. A minha mãe criou…por isso ela não compreende muito bem onde errou. Tudo junto tem mais de 40 anos de descontos para a segurança social. Sempre descontou aquilo que a lei lhe exigia. A lei que tu e outros como tu…gente de tão abnegada dedicação, se entretém a escrever, reescrever, anular, modificar…enfim…trabalhos de outra grandeza que ela não compreende mas valoriza.
Pois como te digo, a minha mãe viu passar o verão quente, os tempos do desenvolvimento sem paralelo, o fechar de todas as fábricas da região, os tempos do oásis, as várias intervenções do FMI, as Expos, os Euros, do futebol e da finança…e passou por isto tudo sempre a trabalhar como se não houvesse amanhã. A pagar impostos todos os meses e todos os anos. IVA, IRC, IRS, IMI, pagamentos por conta, pagamentos especiais por conta, por ter um toldo, por ter a viatura decorada, por ter cão, de selo, de circulação, de radiodifusão…não falhando um único desconto para a sua reforma, não falhando um único imposto. E viu chegar as condicionantes da idade avançada sem lançar um queixume. E foi resolvendo todos os seus problemas de saúde que inexoravelmente foram surgindo, recorrendo a um seguro privado, tentando deixar para aqueles que realmente necessitam, o apoio da segurança social. Em mais de 40 anos de contribuição não teve um dia de baixa, não usufruiu de um cêntimo em subsídios de desemprego. E ela dá voltas e voltas à cabeça e não há forma de se recordar onde possa ter falhado. Mas certamente falhou…
Por isso Pedro, quando eu lhe li a tua carinhosa mensagem, que certamente escreveste na companhia da Laura e com um cobertor a cobrir as vossas pernas para poupar no aquecimento, ela comoveu-se, e cheia de remorsos pediu-me que por esta via te endereçasse um sentido pedido de desculpas.
Pediu também para te dizer que se sente muito orgulhosa de com a redução da sua pensão poder contribuir para que a tua missão na terra seja coroada de sucesso.
És de facto único Pedro. A forma carinhosa como te referes aos sacrifícios que os outros estão fazer, faz-me acreditar que quase os sentes como teus. Sei que sofres por nós Pedro. Sei que cada emprego que se perde é uma chaga que se abre no teu corpo…é um sofrimento atroz que te é imposto…e tudo por culpa de quem? De gente como a minha pobre mãe que mesmo sem querer tem levado toda uma vida a delapidar o património que é de todos. Por isso se a conseguires ajudar a perceber onde errou ficar-te-ei eternamente agradecido. A minha mãe ainda é daquele tipo de pessoas que não suporta a ideia de estar a dever algo a alguém...ajuda-nos pois Pedro.
Aceita por favor, mais uma vez, em nome da minha mãe, sentidas desculpas. Ela diz que apesar de reformada e com menos saúde vai continuar a trabalhar para poder expiar o tanto mal que causou.
Continua Pedro..estás certamente no bom caminho, embora alguns milhões de ingratos não o consigam perceber.
Não te detenhas…os génios raramente são reconhecidos em vida.
Um grande abraço para ti.
Um grande beijo para a Laura.

domingo, 23 de dezembro de 2012

OM SONHO DO PASSOS COELHO ( jornal "Público")

O sonho de Pedro Passos Coelho,José Vítor Malheiros, (no Público)


> «"Um terço é para morrer. Não é que tenhamos gosto em matá-los, mas a
> verdade é que não há alternativa. se não damos cabo deles, acabam por
> nos arrastar com eles para o fundo. E de facto não os vamos
> matar-matar, aquilo que se chama matar, como faziam os nazis. Se
> quiséssemos matá-los mesmo era por aí um clamor que Deus me livre. Há
> gente muito piegas, que não percebe que as decisões duras são para
> tomar, custe o que custar e que, se nos livrarmos de um terço, os
> outros vão ficar melhor. É por isso que nós não os vamos matar. Eles é
> que vão morrendo. Basta que a mortalidade aumente um bocadinho mais
> que nos outros grupos. E as estatísticas já mostram isso. O Mota
> Soares está a fazer bem o seu trabalho. Sempre com aquela cara de
> anjo, sem nunca se desmanchar. Não são os tipos da saúde pública que
> costumam dizer que a pobreza é a coisa que mais mal faz à saúde? Eles
> lá sabem. Por isso, joga tudo a nosso favor. A tendência já mostra
> isso e o que é importante é a tendência. Como eles adoecem mais, é só
> ir dificultando cada vez mais o acesso aos tratamentos. A natureza faz
> o resto. O Paulo Macedo também faz o que pode. Não é genocídio, é
> estatística. Um dia lá chegaremos, o que é importante é que estamos no
> caminho certo. Não há dinheiro para tratar toda a gente e é preciso
> fazer escolhas. E as escolhas implicam sempre sacrifícios. Só podemos
> salvar alguns e devemos salvar aqueles que são mais úteis à sociedade,
> os que geram riqueza. Não pode haver uns tipos que só têm direitos e
> não contribuem com nada, que não têm deveres.
>
> Estas tretas da democracia e da educação e da saúde para todos foram
> inventadas quando a sociedade precisava de milhões e milhões de pobres
> para espalhar estrume e coisas assim. Agora já não precisamos e há
> cretinos que ainda não perceberam que, para nós vivermos bem, é
> preciso podar estes sub-humanos.
>
> Que há um terço que tem de ir à vida não tem dúvida nenhuma. Tem é de
> ser o terço certo, os que gastam os nossos recursos todos e que não
> contribuem. Tem de haver equidade. Se gastam e não contribuem, tenho
> muita pena... os recursos são escassos. Ainda no outro dia os jornais
> diziam que estamos com um milhão de analfabetos. O que é que os
> analfabetos podem contribuir para a sociedade do conhecimento? Só vão
> engrossar a massa dos parasitas, a viver à conta. Portanto, são: os
> analfabetos, os desempregados de longa duração, os doentes crónicos,
> os pensionistas pobres (não vamos meter os velhos todos porque nós não
> somos animais e temos os nossos pais e os nossos avós), os sem-abrigo,
> os pedintes e os ciganos, claro. E os deficientes. Não são todos. Mas
> se não tiverem uma família que possa suportar o custo da assistência
> não se pode atirar esse fardo para cima da sociedade. Não era justo. E
> temos de promover a justiça social.
>
> O outro terço temos de os pôr com dono. É chato ainda precisarmos de
> alguns operários e assim, mas esta pouca-vergonha de pensarem que
> mandam no país só porque votam tem de acabar. Para começar, o país não
> é competitivo com as pessoas a viverem todas decentemente. Não digo
> voltar à escravatura - é outro papão de que não se pode falar -, mas a
> verdade é que as sociedades evoluíram muito graças à escravatura.
> Libertam-se recursos para fazer investimentos e inovação para garantir
> o progresso e permite-se o ócio das classes abastadas, que também
> precisam. A chatice de não podermos eliminar os operários como aos
> sub-humanos é que precisamos destes gajos para fazerem algumas coisas
> chatas e, para mais (por enquanto), votam - ainda que a maioria deles
> ou não vote ou vote em nós. O que é preciso é acabar com esses
> direitos garantidos que fazem com que eles trabalhem o mínimo e vivam
> à sombra da bananeira. Eles têm de ser aquilo que os comunistas dizem
> que eles são: proletários. Acabar com os direitos laborais, a
> estabilidade do emprego, reduzir-lhes o nível de vida de maneira que
> percebam quem manda. Estes têm de andar sempre borrados de medo: medo
> de ficar sem trabalho e passar a ser sub-humanos, de morrer de fome no
> meio da rua. E enchê-los de futebol e telenovelas e reality shows para
> os anestesiar e para pensarem que os filhos deles vão ser estrelas de
> hip-hop e assim.
>
> O outro terço são profissionais e técnicos, que produzem serviços
> essenciais, médicos e engenheiros, mas estes estão no papo. Já os
> convencemos de que combater a desigualdade não é sust entável (tenho
> de mandar uma caixa de charutos ao Lobo Xavier), que para eles poderem
> viver com conforto não há outra alternativa que não seja liquidar os
> ciganos e os desempregados e acabar com o RSI e que para pagar a saúde
> deles não podemos pagar a saúde dos pobres.
>
> Com um terço da população exterminada, um terço anestesiado e um
> terço comprado, o país pode voltar a ser estável e viável. A verdade é
> que a pegada ecológica da sociedade actual não é sustentável. E se não
> fosse assim não poderíamos garantir o nível de luxo crescente da
> classe dirigente, onde eu espero estar um dia. Não vou ficar em
> Massamá a vida toda. O Ângelo (Correia) diz que, se continuarmos a
> portarmo-nos bem, um dia nós também vamos poder pertencer à elite."»
Imagem intercalada 1

sábado, 22 de dezembro de 2012

PRÓXIMAS CONFERÊNCIAS VAGAS LIMITADAS


Ciclo de conferências anti-crise sobre o tema “Emigração no séc. XXI”

NOVA DIÁSPORA PORTUGUESA - EMIGRAR NO SÉCULO XXI

Oradores:

 

7 de Dezembro de 2012, Dias Loureiro: Abrir uma conta e investir em Cabo Verde;

12 de Dezembro de 2012 José Sócrates: Aspetos gerais do financiamento de estudos em universidades Francesas;

19 de Dezembro de 2012 Vítor Constâncio: Ler os sinais do presente para antecipar o futuro;

 21 de Dezembro de 2012 Vale de Azevedo: O mercado de arrendamento em Londres;

9 de Janeiro de 2013 Duarte Lima: Jurisdições internacionais e conflito de competências;

16 de Janeiro de 2013 Luís Figo: Não há almoços grátis;

 23 de Janeiro de 2013 Fátima Felgueiras: Brasil, riscos e oportunidades;

 30 de Janeiro de 2013 Joe Berardo: Preparar o regresso, apostar na cultura;

6 de Fevereiro de 2013 Isaltino Morais: Técnicas avançadas de recursos judiciais.

O acesso é gratuito mas com número de lugares limitado.

Presente de Natal para a trroika( imagens reais de rochas)


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

APELO URGENTE

Algo fácil a fazer e que pode ter significado
DESLIGUE O SEU TELEVISOR QUANDO PASSOS COELHO ESTIVER A TTRANSMITIR A SUA MENSAGEM DE NATAL
 
FAÇA CIRCULAR

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A VERTIGEM

2013: A vertigem

04/12/12 00:10 | Daniel Amaral
Deixo aqui uma sugestão ao leitor: relaxe e esteja atento à remuneração de Janeiro. Se, ao ver o que vê, não cair redondo ? sorria!
Ainda tenho na memória a figura hirta de Sócrates dirigindo-se ao país, com Teixeira dos Santos a tentar enfiar-se pelo chão abaixo. Estávamos em Abril de 2011 e o Governo capitulava, pedindo ajuda externa. Referindo-me ao ex-PM como um D. Quixote lutando contra moinhos de vento, escrevi na altura: "Caiu sem glória, às mãos dos banqueiros, depois de levar o sistema bancário à asfixia". Seguiram-se eleições antecipadas que o PSD ganhou, e a que o CDS se juntou, formando um governo de coligação. Começava o martírio.
A primeira "grande medida" do novo governo PSD-CDS foi ir à banca retirar ?6.000 milhões do fundo de pensões para abater ao défice orçamental. Nada que outros governos antes dele não tivessem feito, mas com uma nuance: logo a seguir lamentava-se, que chatice, agora tinha de pagar as pensões aos bancários... Chegados ao final de 2011, a dívida pública atingia 108% do PIB, bem acima do que herdara do PS. Mas o governo livrou-se de boa. Não fora o fundo de pensões e essa dívida teria subido 3,5 pontos mais.
Admito que esta seja uma análise injusta, porque se tratou de um ano atípico. De facto, o primeiro exercício completo só ocorreu em 2012, com o défice limitado a 5% do PIB. Mas o inevitável aconteceu. O Governo bem se esforçou, esperneou, gemeu. Nada! Aquele défice era impossível. Foi então que teve uma ideia: associar ao défice o resultado da privatização da ANA. E pronto, agora estamos nessa: o Eurostat tem dúvidas, o INE pondera, que se lixe a taça. Para já, a dívida estimada disparou para os 120% do PIB.
Com isto chegamos ao OE-2013, o tal da bomba atómica. Esqueçam os indicadores que lá estão, que não servem para nada, e ninguém acredita neles. O importante é o saque de que precisamos: ?5.300 milhões.
Foi isto que desencadeou o massacre mais violento de que há memória em Portugal. Eu sei que não se tem falado de outra coisa, mas a exacta dimensão do problema ainda não é conhecida. Deixo aqui uma sugestão ao leitor: relaxe e esteja atento à remuneração de Janeiro. Se, ao ver o que vê, não cair redondo - sorria!
Mas ainda não tínhamos absorvido estes números e já o Governo atacava outra vez. Precisava de mais ?4.000 milhões até 2014! Aliás, uma parte deste valor deveria ser utilizada já em 2013.
Bom, digamos que a solução mesmo ideal seria ter o plano estudado até Fevereiro, data em que vai ocorrer a sétima avaliação da ?troika', para criarmos boa impressão... Olho horrorizado para estes números, mastigo-os devagarinho, e sinto que a cabeça me anda à roda, incapaz de processar uma realidade que não entendo.
Que país é este?
Daniel Amaral, Economista

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

UMA CARTA QUE DIZ TUDO

Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.”
Carta que Eugénio Lisboa escreveu a Passos Coelho. O signatário tem hoje 82 anos e, para além de todas as funções que desempenhou e enuncia no final, foi um ensaísta e crítico literário notável. Peço a vossa atenção, porque fala em nome de todos nós. Trata-se de uma reflexão sobre a saúde da nossa pátria e penso que ninguém, de nenhum quadrante, poderá ficar-lhe indiferente.
CARTA AO PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL
Exmo. Senhor Primeiro Ministro
Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe.
Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito – todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! – mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar “as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal.
Mas tenho, como disse, 82 anos, e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice – da minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco – ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot): “Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia.
A velhice, Senhor Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta – as físicas, as emotivas e as morais – um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intitulado The Garden Party: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não interessamos, que, até, incomodamos.
Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a faltadela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo. Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais – tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.
Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos , situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14º andar, explicava, a desolação que se comtempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa, e do seu robôtico Ministro das Finanças - sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... – têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página.
Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida – tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher – como o “conservador” Passos Coelho – quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá.
Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio. Darei a V. Exa. – e com isto termino – uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: ”Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo.
De V. Exa., atentamente,
Eugénio Lisboa
Ex-Director da Total, em Moçambique
Ex-Director da SONAP MOC
Ex-Administrador da SONAPMOC e da SONAREP
Ex-Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Londres
Prof. Catedrático Especial de Estudos Portugueses (Univ. Nottingham)
Ex-Presidente da Comissão Nacional da UNESCO
Prof. Catedrático Visitante da Univ. de Aveiro