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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

LOUCURA TOTAL

cho que toda a gente já viu o vídeo em que, na Universidade de Oxford, que terá tido melhores dias, o presidente da FIFA, um Joseph Blatter, brinca com os gastos de Cristiano Ronaldo em cabeleireiros. A brincadeira é de mau gosto? Provavelmente, aliás à semelhança dos penteados do famoso futebolista. O mau gosto do tal senhor (e dos penteados) diz-nos respeito? Não.
Claro que isso não impediu a pátria, a desportiva e não só, de tomar as dores do sr. Ronaldo e desatar a responder ao sr. Blatter. Segundo largas dezenas de opiniões, o sr. Blatter ofendeu os portugueses em geral e tornou-se persona non grata no nosso país, pelo menos de acordo com Paulo Futre, que agora aparentemente trata dos vistos alfandegários.
Estes eflúvios nacionalistas são recorrentes e, se usados com moderação, consolam as almas. Ou seja, por tonta que fosse, a reacção não espantou. Mas confesso-me espantadíssimo com a aparição do excelentíssimo Luís Marques Guedes, ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares, que em cenário e pose de estadista decidiu expressar "total repúdio" face à "triste figura" do sr. Blatter. Não satisfeito, decretou que a figura em questão é ofensiva "para o Cristiano [sic] e para os amantes, em todo o mundo e, particularmente, em Portugal, do espectacular futebol que ele tão bem joga".
Décadas e décadas de um regime dado ao ridículo prepararam-me para muito, não me prepararam para isto: o membro de um Governo a comentar, a título oficial, os disparates de um suíço que não representa nada excepto uma organização ligada à bola. Podemos achar que outros governantes e outros governos cometeram proezas mais caras e criminosas, desde a nacionalização do BPN às PPP, desde o Magalhães à construção - lá está - de meia dúzia de estádios para um evento de quinze dias. Nunca ninguém se aproximou disto em matéria de pura palermice. Dezasseis dirigentes da FIFA embriagados a percorrer Oxford em pelota mostrariam maior dignidade do que o Conselho de Ministros, o qual julga agradar ao povo através do apelo aos seus piores instintos. Se o Governo estiver correcto, um povo assim não merece salvação. Em qualquer dos casos, o Governo também não.

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