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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

PORTUGAL 2013

Portugal 2013

por Miguel Urbano Rodrigues
Está em curso uma das mais ambiciosas operações de propaganda que o actual governo já levou a cabo. Quanto mais desastrosa é a situação do país, mais esta gente vem acenar com uma recuperação que ninguém vê. António Borges tem a desfaçatez de falar em "fim da austeridade". Essa "austeridade", que é o nome propagandístico da implacável política de saque que o governo leva a cabo, só terá fim quando esta política e as troikas que a apoiam forem efectivamente derrotadas.

Portugal oferece nestas semanas a estrangeiros recém-desembarcados a imagem de um país onde o absurdo e o irracional marcam o quotidiano, empurrando o povo para uma catástrofe social sem precedentes.

Os jornais e a televisão tornam públicas diariamente notícias que comprovam o agravamento de uma crise medonha. O desemprego aumenta a cada dia, atingindo já mais de um milhão de trabalhadores; as falências de empresas sucedem-se em cadeia; escolas, centros de saúde, serviços hospitalares, farmácias, restaurantes fecham as portas; centenas de famílias são desalojadas das casas onde residiam por não pagarem à banca as prestações do contrato; o custo das propinas força milhares de estudantes a abandonarem as universidades; a produção industrial e a agrícola diminuem; a fome alastra nas cidades e aldeias do País; mais de 40 mil portugueses emigraram no ano passado.

O Banco de Portugal informa que a quebra do PIB no ano corrente será quase o dobro da prevista no Orçamento do Estado; as receitas fiscais diminuem apesar do aumento dos impostos; as exportações também caem.

O panorama é assustador. Mas o chefe do Governo, o seu ministro das Finanças e demais membros do gabinete, proclamam monotonamente que a estratégia da coligação bicéfala é um êxito absoluto. E anunciam, eufóricos, que 2014 será um ano magnífico.

A agressão semântica complementa a social e económica. A política de saque imposta em nome da troika é qualificada de "austeridade". A desvergonha é tamanha que os governantes, ignorando gigantescos protestos populares e greves em série, elogiam os trabalhadores pelo estoicismo com que suportam os "sacrifícios", isto é, o roubo.

Enquanto se espera que o Tribunal Constitucional se pronuncie sobre a inconstitucionalidade de medidas constantes do Orçamento de Estado, o país tomou conhecimento de um relatório do FMI – encomendado pelo governo – que considera insuficiente a "austeridade" em curso e sugere como indispensável um pacote que destruiria o que resta do Serviço Nacional de Saúde e da Segurança Social e golpearia mortalmente a Educação. Propõe nomeadamente o despedimento de 150 mil trabalhadores da Função Publica e de uns 50 mil professores.

Reagindo ao coro de indignação nacional, o primeiro-ministro derramou elogios sobre esse documento, anunciador de uma intensificação da ofensiva contra o povo.

O PSD promoveu uma conferência "aberta à sociedade civil" para debater a "Reforma do Estado". Mas, a comunicação social não foi autorizada a acompanhar os debates.

Passos, Portas e ministros dirigem-se ao mundo e aos portugueses como personagens de Jarry e Ionesco em palco de teatro de absurdo.

O governo tudo leva à prática à revelia dos cidadãos e desconhecendo a existência de uma oposição. Mas o vice-presidente do PSD, Sr. Jorge Moreira da Silva, compareceu na SIC Noticias para afirmar que, devoto da democracia, o Executivo tem elevado o nível da participação popular e nada decide sem consulta ao povo.

A Comunicação Social, controlada hegemonicamente pelo grande capital, demonstra incapacidade para cumprir a sua função. Nos serviços noticiosos, políticos do sistema, membros do governo e medidas por ele impostas são alvo de críticas, por vezes severas. Mas as direções dos media permanecem vigilantes. Uma contradição antagónica favorece o objetivo prioritário: anestesiar a consciência social, impedir a ruptura dos mecanismos da alienação.

Os formadores de opinião, em programas de grande audiência, atacam o acessório, insurgem-se contra medidas, sugerem mudanças, defendem uma remodelação do governo, criticam, ocasionalmente com dureza, Passos, Portas e outros. Mas convergem em coro afinado na conclusão de que a "austeridade" é necessária, que o memorando com a troika, assinado por Sócrates e aprovado com entusiasmo por Passos & Portas, deve ser respeitado. Coincidem na opinião de que, afinal, a origem do mal está no estado Moloch, o monstro que deve ser desmontado, reconstruído. A linguagem dos comentadores não é a de Passos nem a do seu guru Gaspar. Eles criticam o governo com hipocrisia mas reconhecem, dolorosamente, que cortar milhares de milhões de euros nos gastos sociais é uma exigência indeclinável da História, uma necessidade imposta pela lógica da sobrevivência. Pouco falta para aderirem à tese de Passos sobre a "Refundação do Estado".

Entre outros formadores de opinião que criticam o acessório mas são solidários com o governo no fundamental, cito Marcelo Rebelo de Sousa, Miguel Sousa Tavares, José Manuel Fernandes, José Gomes Ferreira. Pacheco Pereira, o mais inteligente, é talvez o único comentador que, na hoste dos politólogos da burguesia, demonstra lucidez na crítica à escória humana que desgoverna Portugal.

Neste contexto com matizes de surrealismo, o discurso do primeiro-ministro e o do seu guru Gaspar vão merecer, no futuro, assim o espero, estudo acurado de psicólogos e psiquiatras.

Ambos, muito diferentes, merecem o qualificativo de avis rara.

Passos é uma inflorescência. Pouco dotado intelectualmente, ignorante, mas desconhecedor da sua incompatibilidade com a cultura, tenaz, mesmo firme na defesa do absurdo – acredita, admito, nos benefícios do seu projeto de destruição do país. As suas falas, arrogantes, sincopadas, são cada vez mais um amontoado de palavras sem nexo. Com frequência dá o dito por não dito. Recentemente aconselhou os jovens a emigrarem. Na semana passada, em Paris, desmentiu-se, afirmando que nunca sugeriu tal coisa.

O melífluo Gaspar, aritmeticamente sabedor, mas irracional na aplicação das leis da economia, é um discípulo atento do austríaco Friedrich Hayek e do americano Milton Friedman . Politicamente pouco inteligente, as suas arengas em defesa de decisões catastróficas, a sua teimosa insistência em mascarar de rotundos êxitos fracassos transparentes, a sua habilidade em exercer o comando do governo nos bastidores trazem-me à memória personagens desamadas do teatro de Molière e Shakespeare e do nosso Gil Vicente.

É compreensível que poucos estrangeiros consigam entender o Portugal do ano 2013.

Um dia, sem data previsível no calendário, a farsa dramática em palco findará, antes que, espero, desemboque em tragédia.

Será o povo nas ruas, na fidelidade a grandes rupturas da nossa história, serão as massas trabalhadoras a alavanca do fim do pesadelo.
Vila Nova de Gaia, 24/Janeiro/2013

O original encontra-se em http://www.odiario.info/?p=2751

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
26/Jan/13

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

domingo, 27 de janeiro de 2013

VALE A PENA LER

Caros amigos

Esta carta foi publicada no jornal Público de 5ª feira, 10 de Janeiro

A Prof Teresa Beleza é irmã de Leonor Beleza e Miguel Beleza.

Leiam até ao fim. Vale a pena ler e divulgar.

Brilhante. Só uma Mãe podia ter escrito tal peça.



Carta a minha mãe sobre o SNS e outras coisas em Portugal

TERESA PIZARRO BELEZA

10/01/2013 - 00:00



"E as crianças, Mãe? Vão de novo morrer antes do tempo porque o parto
 foi solitário ou mal assistido, porque a saúde materno-infantil passou
 a ser de novo um bem reservado a alguns privilegiados", escreve a
 autora, em crítica aos cortes no Serviço Nacional de Saúde. Série de
 13 textos sobre os valores humanos da sociedade portuguesa e europeia
 em 2013

"Longas são as estradas da Síria, curta é a piedade dos homens.
 Vendo-me tão pobre e tão só, os cães viriam ladrar-me às portas dos
 casais. Decerto Jesus morreu; e com ele morreu, uma vez mais, toda a
 esperança dos tristes"

Eça de Queiroz, O Suave Milagre (adaptado)

Julgo que nos tornamos verdadeiramente adultas no dia em que perdemos
 a nossa mãe. Ou talvez quando nos tornamos nós próprias mães, não
 tenho bem a certeza. Uma coisa eu sei, ou julgo saber: a única coisa
 que verdadeiramente não podemos deixar de ensinar aos nossos Filhos é
 a compaixão. E esse é o sentimento que me parece mais notoriamente
 longínquo da vida pública portuguesa e europeia neste tempo cinzento
 em que o homo homini lupus volta a ser o mote declarado da economia,
 da política e, suponho que não tarda muito, do próprio direito. A "mão
 invisível" de Adam Smith (A Riqueza das Nações) está cada vez mais
 trôpega, ou mais ineficiente, ou se calhar cada vez mais escorregadia,
 quem sabe se untada. A desigualdade social e a desigualdade económica
 aumentam na razão directa da progressiva privatização do património
 público, seja este a companhia aérea nacional, vulgo TAP, e a
 correspectiva prestadora de serviços aeroportuários, dita ANA, o banco
 do Estado (Caixa Geral de Depósitos), os transportes (depois da
 Rodoviária Nacional, a CP), ou seja, o fornecimento de serviços e bens
 essenciais como a electricidade (EDP, REN), a água (Águas de
 Portugal), a televisão (RTP), ... ou a Saúde.

Uma das maiores transformações sociais, demográficas e económicas em
 Portugal depois da Revolução de Abril de 1974 decorreu da criação do
 Serviço Nacional de Saúde (SNS), por Lei da Assembleia da República,
 em Setembro de 1979 (Lei nº 56/79, de 15 de Setembro, sendo ministro
 da Saúde António Arnault).

O Art. 64º da Constituição da República, apesar de muito alterado face
 à versão originária de 1976 - desde logo, o SNS passou a ser apenas
 tendencialmente gratuito ("tendo em conta as condições económicas e
 sociais dos cidadãos"), coisa que hoje talvez já nem se possa dizer
 que seja, face à subida em flecha do valor das taxas moderadoras, cada
 vez mais imoderadas -, continua a garantir a todos os cidadãos e
 cidadãs "o direito à protecção da saúde", "realizado através de um
 serviço nacional de saúde universal e geral".

Muito recentemente, declarações de algumas pessoas com
 responsabilidades políticas ou institucionais desencadearam a
 discussão em torno da subsistência e orientação do SNS, designadamente
 no que respeita ao controlo na utilização de recursos inevitavelmente
 escassos e finitos. As despesas com a Saúde tornaram-se um peso
 incontrolável, claramente mal distribuído e pior aproveitado. Portugal
 é um país muito pouco eficiente em matéria de políticas públicas, em
 geral, e com muito baixa capacidade de melhorar de forma significativa
 a performance nestes campos, em grande parte, certamente, dada a ainda
 muito baixa qualificação da sua população que, apesar de ter evoluído
 de um estado de analfabetismo bastante generalizado para uma
 iliteracia selectiva e localizada, ainda está muito longe de ser um
 país europeu avançado nesta matéria.

Resolvi escrever a minha Mãe. Ela partiu há dois anos, em Outubro de
 2010. Mas talvez o seu espírito, que, como diria Jorge Luís Borges,
 está sempre a meu lado (A Posse do Ontem, em Os Conjurados), me
 consiga inspirar a pensar melhor sobre o assunto.

Aqui vai o meu texto para ela:

"Mãe, sabes que agora em Portugal mandam uns senhores que estão a dar
 cabo do Serviço Nacional de Saúde? E que dizem que é por causa de uma
 tal detroika, que agora manda neles? Lembras-te da "Lei Arnault", que,
 segundo ele mesmo diz, tu redigiste, depois de muito pensares e
 estudares sobre o assunto, com a seriedade e o empenho que punhas em
 tudo o que fazias? Lembras-te das nossas conversas sobre a necessidade
 de toda a gente em Portugal ter acesso a cuidados de saúde básicos de
 boa qualidade e de como essa possibilidade fizera em poucos anos
 baixar drasticamente a mortalidade materna e infantil, flagelos
 nacionais antigos, como uma das coisas boas que se tornaram realidade
 depois de 1974 e com a restauração da democracia? Lembras-te de quando
 eu te dizia que eras tão mais socialista do que "eles", os do Partido
 Socialista, e tu te zangavas porque não era essa a tua imagem e a tua
 crença? E quando eu te dizia que o ministro António Arnault era maçon
 e tu não acreditavas, porque ele era (e é) um homem bom - e para ti a
 Maçonaria era a encarnação do Diabo... Mãe, tu, que te dizias e
 julgavas convictamente monárquica, católica, miguelista, jurista
 cartesiana (isso era o que eu te dizia e que penso que eras, também),
 que conhecias a Bíblia e Teilhard de Chardin como ninguém e me
 ensinaste que Deus criara o homem e a mulher à Sua imagem, quando
 pronunciou o fiat, porque assim se diz no Génesis... Tu que dizias que
 o problema dos economistas era que não tinham aprendido latim... e me
 tiravas as dúvidas de português e outras coisas, quando me não
 mandavas ir ao dicionário, como agora eu mando o meu Filho... Tu que
 foste o meu "Google", às vezes renitente, quando este ainda não
 existia... Sabes que agora manda em Portugal gente ignorante e
 pacóvia, que nem se lembra já de como se vivia na pobreza e na doença,
 que julga que o Estado se deve retirar de tudo, incluindo da Saúde, e
 confunde a absoluta e premente necessidade de controlar e conter o
 imenso desperdício com a ideia de fechar portas, urgências claramente
 úteis social e geograficamente... Sabes que fecharam o Serviço de
 Urgência e o excelente Serviço de Cardiologia do Hospital Curry Cabral
 sem sequer prevenirem ou consultarem o seu chefe? Onde irão agora
 todas aquelas pessoas tão claramente pobres, vulneráveis e humildes
 que tantas vezes lá encontrei e que não pareciam capazes de aprenderem
 outro caminho, outro destino, de encontrarem outros dedicados e
 pacientes "ouvidores"? Sabes que um ministro qualquer disse que o
 edifício da Maternidade Alfredo da Costa não tinha qualquer interesse
 urbanístico ou arquitectónico, para além de condenar ao abate essa
 unidade de saúde, com limitações já evidentes, mas que tão importante
 foi para tanta gente humilde ter os seus filhos em segurança? Será
 mesmo que não a poderiam "refundar", como agora se diz? Ou quererão
 construir um condomínio fechado, luxuoso e kitsch, no meio de uma das
 minhas, das nossas cidades? Lembras-te de me ires buscar à MAC quando
 nasceu o meu Filho e de como te contei da imensa dedicação do pessoal
 médico e de enfermagem e da clara sobre-representação de parturientes
 de origem social modesta, imigrantes, ciganas, ou simplesmente pobres?

Sabes que há muita gente que pensa que a iniciativa privada,
 incontrolada e à solta, é que vai salvar Portugal da bancarrota, e que
 ignora o sentido das palavras solidariedade, justiça, igualdade,
 compaixão?

Sabes, Mãe, eu lembro-me de ver pessoas que partiram de Portugal para
 o mundo em busca de trabalho e rendimento a viver em "casas" feitas de
 bocados de camioneta, de restos de madeira, de cartão e outros
 improváveis e etéreos materiais, emigrantes portugueses que foram
 parar ao bidonville em St Denis, nos arredores de Paris, num Inverno
 em que a temperatura desceu a 20 graus Celsius abaixo de zero (1970).
 Nas "paredes", havia toda a sorte de inscrições contra a guerra
 colonial e contra o regime que então reinava em Portugal. O padre Zé,
 o nosso amigo da Mission Catholique Portugaise que me acompanhava e me
 quis mostrar o bairro, proibiu-me de falar português e de sair do
 carro enquanto ali passávamos... e aqui em Portugal eu vi tanta
 miséria envergonhada, homens de chapéu na mão a pedir emprego,
 mulheres e crianças a pedir esmola, apesar de todas as leis e medidas
 que o Estado Novo produziu para as esconder, como já fizera a Primeira
 República. A pobreza e a vadiagem não se eliminam com Mitras e medidas
 de segurança, mas com produção e distribuição de riqueza e de justiça
 social. Com a promoção da igualdade e da solidariedade, como manda a
 Constituição.

E a Saúde, Mãe, que vão fazer dela? Da saúde dos pobres, dos velhos,
 das crianças, dos que não têm nem podem ter seguros de saúde de luxo,
 porque não têm dinheiro, porque já não têm idade, ou porque não têm
 saúde?

E as crianças, Mãe? Vão de novo morrer antes do tempo porque o parto
 foi solitário ou mal assistido, porque a saúde materno-infantil passou
 a ser de novo um bem reservado a alguns privilegiados, ou porque a
 "selecção natural" voltará a equilibrar a demografia em Portugal,
 recolhidas as mulheres a suas casas, desempregadas e de novo
 domesticadas, e perdida de novo a possibilidade de controlo sobre a
 sua própria fertilidade? O planeamento familiar, que tu tão bem
 explicaste que deveria segundo a lei seguir a autonomia que o Código
 Civil reconhece na capacidade natural dos adolescentes - tu, católica,
 jurista, supostamente conservadora (assim te pensavas, às vezes?)...
 Sabes que aqui há tempos ouvi uma jurista ignorante dizer em público
 que só aos 18 anos os jovens poderiam ir sozinhos a uma consulta de
 planeamento familiar, quando atingissem a maioridade, sem autorização
 de pai ou mãe? Ai, minha Mãe, como a ignorância é perigosa... Será que
 nos espera um qualquer Ceausescu ou equivalente, dado o progressivo
 estrangulamento político e social a que a necessidade económica e a
 cegueira política nos estão levando? Os traços fascizantes que são
 visíveis na repressão da liberdade de expressão e de manifestação, em
 tudo tão contrários à Constituição da República, serão só impressão de
 uns "maníacos de esquerda", como dizem umas pessoas que há tão pouco
 tempo garantiam que essa coisa de esquerda e direita era coisa do
 passado? Mas as crianças são o futuro, Mãe, que será deste país sem
 elas, sem a sua saúde e sem a sua educação, sem o seu bem-estar, sem a
 sua alegria? Eu lembro-me tão bem dos miúdos descalços e ranhosos nas
 ruas da minha infância... e da luta legal, tão recente ainda, quem
 sabe se perdida, contra o trabalho clandestino, ilegal e infame das
 crianças a coserem sapatos em casa, a faltarem à escola, a ajudarem as
 famílias, ainda há tão pouco tempo, ou dos miuditos com carregos e
 encargos maiores que eles, à semelhança das mulheres da carqueja a
 subirem aquela rampa infame que Helder Pacheco, o poeta-guia do nosso
 Porto, tão bem descreve...

"Que quem já é pecador sofra tormentos, enfim! Mas as crianças,
 Senhor, porque lhes dais tanta dor?!... Porque padecem assim?!..."

Mãe, se agora cá voltasses, ao mundo dos vivos, acho que terias uma
 desilusão terrível. Melhor que não vejas o que estão fazendo do nosso
 pobre país.

Da tua Filha, com muita saudade,

Maria Teresa"

Ericeira, Portugal, Europa, dia 31 de Dezembro de 2012

* Professora de Direito Penal, directora da Faculdade de Direito da
 Universidade Nova de Lisboa. tpb@fd.unl.p




quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A QUEM ESTAMOS ENTREGUES

Carlos Mulas-Granados, um dos autores do relatório que o FMI elaborou em colaboração com o Governo português para arrasar o Estado Social, foi demitido da Fundação do PSOE que dirigia por ter inventado uma colunista que cobrava 3.000 euros por artigo.

domingo, 20 de janeiro de 2013

VIVA A TRANSPARÊNCIA

NÃO É NOVO, MAS VALE SEMPRE A PENA RECORDAR PARA MANTER A MEMÓRIA FRESCA, A PROPÓSITO DESTES ARTISTAS?
SOMOS TODOS UNS ANJINHOS ENTRETIDOS COM TRETAS E A PENSAR QUE DISCUTIMOS POLITICA !

Os arautos da transparência?
Os arautos da transparência, têm como exemplo disso mesmo ? transparência ? o adjunto do primeiro-ministro, o senhor Carlos Moedas, que, veio agora a saber-se, tem 3 empresas ligadas às Finanças, aos Seguros e à Imagem e Comunicação. Como sócios, teve os senhores Pais do Amaral, Alexandre Relvas e Filipe de Button, a quem comprou todas as quotas em Dezembro passado.
Como clientes, tem a Ren, a EDP, o IAPMEI, a ANA, a Liberty Seguros, entre outros.

Nada obsceno, para quem é adjunto de Pedro Passos Coelho!

E não é que o bom do Moedas até comprou as participações dos ex-sócios para ?oferecer? o bolo inteiro à mulher?! (Disse-o ele à Sábado).
Não esquecer ainda que Carlos Moedas é um dos homens de confiança do Goldman Sachs, a cabeça do Polvo Financeiro Mundial, onde estava a trabalhar antes de vir para o Governo.
Também António Borges é outro ex-dirigente do Goldman, e que está agora a orientar(!?) as Privatizações da TAP, ANA, GALP, Águas de Portugal, etc.
Adoráveis, estes liberais de trazer por casa, dependentes do Estado, quer para um emprego, quer para os seus negócios.
Lamentavelmente, à política económica suicidária da UE, que resultou nas tragédias que já todos conhecem, acresce a queda do Governo Holandês (ironicamente, acérrimo defensor da austeridade) e o agravamento da recessão em Espanha. Por conseguinte, a zona euro vê o seu espaço de manobra cada vez mais reduzido e os ataques dos especuladores são cada vez mais mortíferos.
Vale a pena lembrar uma vez mais que o Goldman and Sachs, o Citygroup, o Wells Fargo, etc., apostaram biliões de dólares na implosão da moeda única. Na sequência dos avultadíssimos lucros obtidos durante a crise financeira de 2008 e das suspeitas de manipulação de mercado que recaíam sobre estas entidades, o Senado norte americano levantou um inquérito que resultou na condenação dos seus gestores.
Ficou também demonstrado que o Goldman and Sachs aconselhou os seus clientes a efectuarem investimentos no mercado de derivados num determinado sentido. Todavia, esta entidade realizou apostas em sentido contrário no mesmo mercado. Deste modo, obtiveram lucros de 17 biliões de dólares (com prejuízo para os seus clientes).
Estes predadores criminosos, disfarçados de banqueiros e investidores respeitáveis, são jogadores de póquer que jogam com as cartas marcadas e, por esta via, auferem lucros avultadíssimos, tornando-se, assim, nos homens mais ricos e influentes do planeta. Entretanto, todos os dias são lançadas milhões de pessoas no desemprego e na pobreza em todo o planeta em resultado desta actividade predatória. Tudo isto, revoltantemente, acontece com a cumplicidade de governantes e das autoridades reguladoras.
Desde a crise financeira de 1929 que o Goldman and Sachs tem estado ligado a todos os escândalos financeiros que envolvem especulação e manipulação de mercado, com os quais tem sempre obtido lucros monstruosos. Acresce que este banco tem armazenado milhares de toneladas de zinco, alumínio, petróleo, cereais, etc., com o objectivo de provocar a subida dos preços e assim obter lucros astronómicos. Desta maneira, condiciona o crescimento da economia mundial, bem como condena milhões de pessoas a fome.
No que toca a canibalização económica de um país, a fórmula é simples: o Goldman, com a cumplicidade das agências de rating, declara que um governo está insolvente, como consequência as yields sobem e obriga-o, assim, a pedir mais empréstimos com juros agiotas. Em simultâneo, impõe duras medidas de austeridade que empobrecem esse pais. De seguida, em nome do aumento da competitividade e da modernização, obriga-os a abrir os seus sectores económicos estratégicos (energia, águas, saúde, banca, seguros, etc.) às corporações internacionais.
Como as empresas nacionais estão bastante fragilizadas e depauperadas pelas medidas de austeridade e da consequente recessão, não conseguem competir e acabam por ser presa fácil das grandes corporações internacionais.
A estratégia predadora do Goldman and Sachs tem sido muito eficiente. Esta passa por infiltrar os seus quadros nas grandes instituições políticas e financeiras internacionais, de forma a condicionar e manipular a evolução política e económica em seu favor e em prejuízo das populações.
Desta maneira, dos cargos de CEO do Banco Mundial, do FMI, da FED, etc., fazem parte quadros oriundos do Goldman and Sachs. E na UE estão: Mário Draghi (BCE), Mário Monti e Lucas Papademos (primeiros-ministros de Itália e da Grécia, respectivamente), entre outros.
Alguns eurodeputados ficaram estupefactos quando descobriram que alguns consultores da Comissão Europeia, bem como da própria Angela Merkel, tem fortes ligações ao Goldman and Sachs. Este poderoso império do mal, que se exprime através de sociedades anónimas, está a destruir não só a economia e o modelo social, como também as impotentes democracias europeias.
Este texto não é de uma pessoa qualquer.

Texto de Domingos Ferreira

Professor/Investigador Universidade do Texas, EUA, Universidade Nova de Lisboa




COMPROVADO

Após mais de 38 anos sobre o 25 de Abril, duas coisas estão comprovadas:

1ª - Os Comunistas não comem criancinhas ao pequeno almoço;
2ª - Mas a direita come o pequeno almoço às criancinhas.

REQUISITÓRIO AO REGIME

REQUISITÓRIO AO REGIME


A história do burlão que pensava poder ajudar o país não pode, de modo nenhum, enterrar a história dos burlões que só ajudaram a enterrar o país. Pois a verdadeira história, de que todos deveríamos estar a falar, é a da reportagem que o jornalista Pedro Coelho fez para a SIC sobre o “caso BPN”.
Num país em que se discute como cortar quatro mil milhões de euros – nos hospitais, nas escolas, nas pensões -, é imoral a distração dos cinco a sete mil milhões de euros que nos pode causar a fraude do BPN, e os mais de três mil milhões que já nos custou.
Já conhecíamos o retrato de um banco roubado por dentro num carrossel de compra e recompra das suas próprias ações através de uma rede de empresas sedeadas em paraísos fiscais. A reportagem de Pedro Coelho junta nomes e caras a essa descrição abstrata. Claro, o próprio José Oliveira e Costa fez empréstimos a si mesmo no valor de 15 milhões de euros. A sua filha Iolanda recebeu 3,4 milhões de euros. O seu braço direito, Luís Caprichoso, recebeu quase um milhão de euros. Mas isto ainda não é nada.
Uma empresa de Duarte Lima recebeu 49 milhões de euros. Outro ex-dirigente do PSD, Arlindo Carvalho, junto com um do PS, José Neto, receberam, no seu conjunto, pelo menos 75 milhões de euros. Outro do PSD, Joaquim Coimbra, recebeu 11 milhões. Almerindo Duarte, dono de uma empresa chamada Transiberica, recebeu 23 milhões. Um homem do futebol, Aprígio Santos, recebeu 140 milhões. Uma empresa de cimentos do pelouro de Dias Loureiro recebeu 90 milhões.
Isto é dinheiro perdido, que acabaremos nós a pagar. Só em juros pagaremos todos os anos 200 milhões de euros até 2020, por um empréstimo de três mil milhões e meio que foi realizado para tapar este buraco. Que não foi feito por um asteróide vindo do espaço. Foi feito por esta gente, por esta cultura de promiscuidade, pela incúria de uma classe dominante, em Portugal.
Na dor de alma que é ver este país cheio de gente a quem é denegado o emprego, o dinheiro para os estudos, os planos para o futuro, e o próprio país para fazer a vida, não podemos esquecer-nos deste retrato.
Houve sobre este caso duas comissões parlamentares, levadas bastante a sério por vários deputados. E estão em curso investigações e processos judiciais. Terão meios suficientes? São elas a melhor hipótese de recuperarmos algum do dinheiro perdido.
A questão é saber qual a sequência real deste caso para o país. Em princípio, não deveríamos ser os mesmos depois do caso BPN. Na prática, o julgamento político deste caso nunca foi cabalmente feito.
Que pensava esta gente? Que pensavam eles, quando lhes era proposto um negócio de compra e recompra de ações que só poderia cheirar a esturro? Até o Presidente da República fez esse negócio. Nunca tivemos direito a uma explicação séria: o que sentiu? Lembrou-se do país no momento em que fez o negócio?
E os outros? Como aceitaram dezenas e centenas de milhões de euros, em troca de nada, gente que foi ministro, deputado, conselheiro de Estado? Porque só os usaram em negócios fajutos?
Que meio de negócios é este? Que cultura política é esta?
Esta é a minha última crónica do ano (e interromperei agora por um mês) e quis terminar com estas perguntas. O calendário passará por nós, mas Portugal não avançará, enquanto não lhes responder.


sábado, 19 de janeiro de 2013

SILÊNCIOS

Assunto: Os silêncios
Um dia bateram-me à porta e anunciaram-me que o governo tinha decidido cortar-me meio subsídio de Natal. Apesar de inconstitucional, compreendi o
sacrifício que o Governo me pedia.

Noutro dia bateram à porta do meu pai e anunciaram-lhe que iam cortar meia pensão do Natal. Apesar de considerar que era um roubo, ainda admiti, porque o pais estava em estado de emergência.

Depois bateram-me à porta e anunciaram que me iam tirar dois meses de salário e dois meses de pensão ao meu pai. Depois da estupefacção,
resignação.

A 7 de Setembro, bateram-me à porta para me anunciar que tiravam 7% do salário para dar 5,75% ao patrão e ficavam com os trocos, em principio para
os cofres da Segurança Social.

Desta vez fiquei indignado. Achei que estava a ser roubado e que estavam a transformar os patrões em receptadores do dinheiro roubado.
Em reacção, corri para a rua para protestar.

Bateram-me mais uma vez à porta e informaram-me de que o ministro das finanças ia reescalonar as taxas de IRS, de modo a torna-lo mais progressivo.

Imaginando que iam poupar os rendimentos mais baixos e taxar fortemente os mais altos, pensei que o Governo, finalmente, voltava ao trilho da lei.

Mas para surpresa minha, voltaram a bater-me à porta para me ameaçarem com aumentos brutais no IMI. A minha indignação transformou-se em ira e
juntei-me ao movimento nacional de resistentes ao pagamento do IMI.

Ainda mal refeito do choque do IMI, bateram-me novamente à porta para me mostrarem nos jornais, em grandes parangonas e cinco colunas, os novos
escalões de IRS. Afinal aumentaram as taxas dos rendimentos mais baixos, menos os dos mais altos e não criaram nenhum escalão para os mais ricos. E a
progressividade do rei dos impostos diminuiu. A minha raiva subiu de tom e resolvi não mais voltar a votar estou preparado para qualquer acção
revolucionária que apareça. Ao fim e ao cabo eu o meu pai e a minha família já não temos nada a perder.

(J. Nunes de Almeida, Ericeira)
Maiakovski, poeta russo escreveu, no início do século XX :

> Na primeira noite, eles se aproximam
> e colhem uma flor de nosso jardim.
> E não dizemos nada.
> Na segunda noite,
> já não se escondem,
> pisam as flores, matam nosso cão.
> E na oportunidade
> E não dizemos nada.
> Até que um dia, o mais frágil deles,
> entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo,
> arranca-nos a voz da garganta.
> E porque não dissemos nada,
> já não podemos dizer nada.
>
> Maiakovski (1893-1930)
>
> Depois Bertold Brecht escreveu:
>
> Primeiro levaram os negros
> Mas não me importei com isso
> Eu não era negro
> Em seguida levaram alguns operários
> Mas não me importei com isso
> Eu também não era operário
> Depois prenderam os miseráveis
> Mas não me importei com isso
> Porque eu não sou miserável
> Depois agarraram uns desempregados
> Mas como tenho meu emprego
> Também não me importei
> Agora estão me levando
> Mas já é tarde.
> Como eu não me importei com ninguém
> Ninguém se importa comigo.

> Bertold Brecht (1898-1956)
>
> Em 1933 Martin Niemöller criou o seguinte poema:
>
> Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
> Como não sou judeu, não me incomodei.
> No dia seguinte, vieram e levaram
> meu outro vizinho que era comunista.
> Como não sou comunista, não me incomodei .
> No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
> Como não sou católico, não me incomodei.
> No quarto dia, vieram e me levaram;
> já não havia mais ninguém para reclamar?
Martin Niemöller,(1892-1984)?
> símbolo da resistência aos nazis.


> Em 2007 Cláudio Humberto presenteou-nos assim:
>
> Primeiro eles roubaram nos sinais, mas não fui eu a vítima, Depois
> incendiaram os ônibus, mas eu não estava neles; Depois fecharam ruas, onde
> não moro; Fecharam então o portão da favela, que não habito; Em seguida
> arrastaram até a morte uma criança, que não era meu filho?
Cláudio Humberto, em 09 Fevereiro de 2007

> Também Martin Luther King (1929.1968):
>
> O que mais me preocupa não é nem o grito dos violentos, dos corruptos, dos
> desonestos, dos sem carácter, dos sem ética? o que mais me preocupa é o
> silêncio dos bons!.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

UM ARTIGO...A LER

por Guilherme Alves Coelho [*]

Dizem alguns cientistas que "o progresso científico é a substituição de um erro por um erro menor". Se a politica fosse uma ciência exacta assim deveria ser também. Mas não, a existência de classes sociais, que se opõem fortemente, perturba a "correcção do erro". O progresso social não é linear como na ciência, mas sim feito de avanços e recuos onde, por vezes, é preciso recomeçar do zero.
A história de Portugal está repleta de exemplos desta dinâmica. O "erro" da monarquia demorou séculos a substituir pelo "erro" menor da República. Mas conseguido esse avanço, de novo a situação se foi degradando, até ser preciso emendá-lo de novo. A correcção, que muitos creram ser para melhor, depressa se revelaria um pesadelo ainda pior que o anterior: foi o fascismo. O "erro" cresceu durante 48 anos, atingindo limites insuportáveis, até mais uma vez o povo repor o rumo no dia 25 de Abril de 1974.
Parecia dado o grande e definitivo salto em frente. Muitos se convenceram que as forças conservadoras nunca mais regressariam e finalmente estava instituída a democracia. Engano. Desde então, os sucessivos governos de alternância sucederam-se com o mesmo objectivo de sempre: repor "o erro" anterior.
Hoje, decorridos quase tantos anos como os que levou o fascismo, a história repete-se. Parece ter chegado outra vez o momento histórico de emendar o "erro".
Há cerca de um século, dois portugueses preocupados com o seu país e com o seu povo, davam-se conta dos mesmos problemas. Um deles, Guerra Junqueiro, na época que antecedeu a revolução republicana, apresentava algumas das razões por que havia que emendar o "erro". Comentava ele acerca do povo, da burguesia, do poder legislativo, da justiça e finalmente dos dois partidos que então, como agora, monopolizavam o poder:


" Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia , cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo , esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar." ( Guerra Junqueiro , 1896).

Apesar desse quadro negro, a esperança popular renascia. O "lampejo misterioso da alma nacional, guardado na noite da inconsciência" do povo, conduziu, 14 anos depois, à revolução republicana. Porém apenas nove anos de regime republicano eram passados e já era preciso novo combate. Fialho de Almeida zurzia fortemente os governantes coevos, não lhes perdoando o desbaratar da esperança ganha com o novo regime:


"Aqui d'el-rei! Isto é uma liquidação geral nos bens do povo; um saque trinta vezes mais vil que o de Junot; uma epopeia de furto, mais audaciosa de que a história célebre de Ali-Babá, onde também figuram cavernas de riquezas, um poderoso chefe e quarenta ladrões. Morreu o chefe (o Rei D. Fernando), as preciosidades foram arroladas, mas os quarenta ladrões multiplicaram-se e por aí continuam a saquear até ao fim. (...)
Conclui-se disto a deliquescência da vida portuguesa, nos seus duplos aspectos da consciência e da moral. Lá começa primeiro uma separação completa e desdenhosa entre os interesses da grossa massa da população, e os da matilha que reparte entre si os dinheiros das rendas públicas, e se crapulisa na porfia escandalosa do poder. Vê-se em seguida a indiferença pública crescer em matéria politica, os jornais serem lidos só por passatempo, os actos do governo serem mencionados só por uma variante de anedotas obscenas, a politica armar em profissão sem hombridade, em impune chantage, e jornalistas e homens de estado enfileirarem, no conceito geral, logo em seguida aos ratoneiros e assassinos. (...) Virá um dia em que o povo desnaturado por todas aquelas lições de compra e venda, farto de ludíbrios e vexames, abdique por fim do seu ideal de autonomia, perca a noção de solo, encha de excremento as páginas da história... e permita Deus que não o ouçamos bramir, com desesperada voz, aos ecos da fronteira:
- Livrem-me desta canalha que me fez odiosa a liberdade, que em paga disso aqui lhes ofereço a minha servidão! (Fialho d'Almeida , Os Gatos , 1919)

Trinta e oito anos decorreram sobre o 25 de Abril. O que se vê crescer é novamente o grito popular: "livrem-me desta canalha que me quer fazer odiosa a liberdade" conquistada em 1974. "A matilha que reparte entre si o dinheiro das rendas públicas" continua a mesma de sempre. É a mesma do fascismo, é a mesma da república, e a mesma da monarquia. A mesma que reparte com o estrangeiro ocupante "o saque trinta vezes mais vil que o de Junot".
O povo, como então, parece estar "farto de ludíbrios e vexames". Mas agora com uma grande e determinante diferença. A experiência ganha com as conquistas pós 25 de Abril trouxe-lhe uma visão do que pode ser uma sociedade mais justa. De que não está disposto a abdicar para "oferecer a servidão" ao ocupante!
Não foi para isto que se fez o 25 de Abril, costuma dizer-se; foi precisamente por causa disto, acrescento. Foi por apresentar os mesmos sinais de "deliquescência da vida portuguesa nos seus duplos aspectos da consciência e da moral" que hoje apresenta, que o povo português foi então chamado a "corrigir esse erro". Saberá fazê-lo de novo, e tantas vezes quantas os seus inimigos, cá dentro e lá fora, insistirem em regressar ao passado.

13/Dezembro/2012

[*] Arquitecto
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

VERDADES

REQUISITÓRIO AO REGIME
A história do burlão que pensava poder ajudar o país não pode, de modo nenhum, enterrar a história dos burlões que só ajudaram a enterrar o país. Pois a verdadeira história, de que todos deveríamos estar a falar, é a da reportagem que o jornalista Pedro Coelho fez para a SIC sobre o “caso BPN”.
Num país em que se discute como cortar quatro mil milhões de euros – nos hospitais, nas escolas, nas pensões -, é imoral a distração dos cinco a sete mil milhões de euros que nos pode causar a fraude do BPN, e os mais de três mil milhões que já nos custou.
Já conhecíamos o retrato de um banco roubado por dentro num carrossel de compra e recompra das suas próprias ações através de uma rede de empresas sedeadas em paraísos fiscais. A reportagem de Pedro Coelho junta nomes e caras a essa descrição abstrata. Claro, o próprio José Oliveira e Costa fez empréstimos a si mesmo no valor de 15 milhões de euros. A sua filha Iolanda recebeu 3,4 milhões de euros. O seu braço direito, Luís Caprichoso, recebeu quase um milhão de euros. Mas isto ainda não é nada.
Uma empresa de Duarte Lima recebeu 49 milhões de euros. Outro ex-dirigente do PSD, Arlindo Carvalho, junto com um do PS, José Neto, receberam, no seu conjunto, pelo menos 75 milhões de euros. Outro do PSD, Joaquim Coimbra, recebeu 11 milhões. Almerindo Duarte, dono de uma empresa chamada Transiberica, recebeu 23 milhões. Um homem do futebol, Aprígio Santos, recebeu 140 milhões. Uma empresa de cimentos do pelouro de Dias Loureiro recebeu 90 milhões.
Isto é dinheiro perdido, que acabaremos nós a pagar. Só em juros pagaremos todos os anos 200 milhões de euros até 2020, por um empréstimo de três mil milhões e meio que foi realizado para tapar este buraco. Que não foi feito por um asteróide vindo do espaço. Foi feito por esta gente, por esta cultura de promiscuidade, pela incúria de uma classe dominante, em Portugal.
Na dor de alma que é ver este país cheio de gente a quem é denegado o emprego, o dinheiro para os estudos, os planos para o futuro, e o próprio país para fazer a vida, não podemos esquecer-nos deste retrato.
Houve sobre este caso duas comissões parlamentares, levadas bastante a sério por vários deputados. E estão em curso investigações e processos judiciais. Terão meios suficientes? São elas a melhor hipótese de recuperarmos algum do dinheiro perdido.
A questão é saber qual a sequência real deste caso para o país. Em princípio, não deveríamos ser os mesmos depois do caso BPN. Na prática, o julgamento político deste caso nunca foi cabalmente feito.
Que pensava esta gente? Que pensavam eles, quando lhes era proposto um negócio de compra e recompra de ações que só poderia cheirar a esturro? Até o Presidente da República fez esse negócio. Nunca tivemos direito a uma explicação séria: o que sentiu? Lembrou-se do país no momento em que fez o negócio?
E os outros? Como aceitaram dezenas e centenas de milhões de euros, em troca de nada, gente que foi ministro, deputado, conselheiro de Estado? Porque só os usaram em negócios fajutos?
Que meio de negócios é este? Que cultura política é esta?
Esta é a minha última crónica do ano (e interromperei agora por um mês) e quis terminar com estas perguntas. O calendário passará por nós, mas Portugal não avançará, enquanto não lhes responder.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

PASSOS DOELHO E A COERÊNCIA

PASSOS COELHO E A COERÊNCIA
Ao deixar derrapar a execução orçamental, ao afundar a economia nacional e ao não cumprir os objetivos que se propôs, designadamente não atingindo a meta do défice (4,5%) com que se comprometeu, o Governo incorreu em responsabilidade criminal.
Quem o disse não fui eu. Foi o próprio dr. Passos Coelho, num discurso de que o "Correio da Manhã" de 6-11-2010 publicou os seguintes excertos:
"Se nós temos um Orçamento e não o cumprimos, se dissemos que a despesa devia ser de 100 e ela foi de 300, aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa também têm de ser civil e criminalmente responsáveis pelos seus actos e pelas suas acções"
"Não podemos permitir que todos aqueles que estão nas empresas privadas ou que estão no Estado fixem objetivos e não os cumpram. Sempre que se falham os objectivos, sempre que a execução do Orçamento derrapa, sempre que arranjamos buracos financeiros onde devíamos estar a criar excedentes de poupança, aquilo que se passa é que há mais pessoas que vão para o desemprego e a economia afunda-se"
"Não se pode permitir que os responsáveis pelos maus resultados andem sempre de espinha direita, como se não fosse nada com eles". "Quem impõe tantos sacrifícios às pessoas e não cumpre, merece ou não merece ser responsabilizado civil e criminalmente pelos seus actos?"

Proféticas palavras!

Pois se assim é, aguarda-se que o dr. Passos Coelho seja por uma vez coerente e vá entregar-se no posto da G.N.R. de Massamá.

sábado, 5 de janeiro de 2013

CARTA AO PASSOS(3)

Amigo Pedro, hoje dirijo-me a ti. O camarada Van Zeller foi passar o ano nas Maldivas, está demasiado longe para que a minha voz lhe chegue. Acabei agora mesmo de ler a tua mensagem de Natal no Facebook e só posso dizer-te que me sinto profundamente desiludido. Afinal, Pedro, és tão piegas quanto a maioria dos portugueses. A época natalícia desmascarou-te, despiu-te da armadura de ferro, amoleceu-te. Falas-nos como se fosses um convidado da Oprah ou um entrevistado do Alta Definição, esvaindo-se em lágrimas de menino pendurado numa qualquer parede de um qualquer solar português. Dizes, ó Pedro, que este Natal não foi o Natal que merecíamos. Reconhece-lo depois de teres acabado com essa gordura social do décimo terceiro salário. Convenceste-nos de que precisávamos de fazer dieta, e agora vens vender-nos a banha da cobra em que terás banhado as azevias da Laura. Lamentas que muitas famílias não tenham gozado na Consoada “os pratos que se habituaram”, como se os pratos tivessem hábitos. E que muitos não conseguiram ter a família toda à mesma mesa, como se isso fosse um problema para quem já nem mesa tem. Quanto mais família! Deves pensar que andamos todos a cultivar afectos, estimulados quiçá pela literatura da E. L. James. Mas tu não vês, ó Pedro, que os velhos foram abandonados, as criancinhas deglutidas e os gérmenes secados que nem figos? Não andas a escutar com atenção o Presidente da República. Se escutasses, também tu questionar-te-ias sobre o que mais é preciso fazer para que nasçam crianças em Portugal. E também tu ficarias fascinado com a mungidura das vacas e os méritos do bolo-rei em bocas amordaçadas. Os portugueses que não puderam dar aos filhos um simples presente deviam dar os filhos a este Pedro. Ele que os crie com pratos de Sacavém. Ó Pedro, tu não és assim. Tu és outra c

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

SONHO DE NATAL


FANTASIA DE NATAL



Era uma vez um país

Habitado por um povo feliz

Que trabalhava, trabalhava, trabalhava

Razão porque esse país prosperava

Qualquer terreno estava cultivado

E à noite, aos fins-de-semana

Música de qualidade, folclore e fado

Desde o norte até ao sul

Debaixo dum céu azul

Nos portos dos pescadores

Derramavam-se suores

Havia barcos de pesca com fartura

E o peixe debitava-se à factura

Sendo assim, no bom sentido

Era um país em desassossego

Porque não havia desemprego

A Segurança Social

Abrangia todo o povo em geral

A vontade de estudar era muita

E a Educação gratuita

O sistema de saúde

Cobria-se, mas só de virtude

O povo votava livremente

Sem ser condicionado

E o resultado

Era eleger gente competente

Que com entrega e abnegação

Dirigia os interesses da nação

Sem corrupção

Não se desvendavam mistérios

E nos ministérios

Só havia políticos sérios

O desporto era todo amador

Como um povo adulto não se enrola

Ninguém ganhava dinheiro a jogar à bola

Porque quem jogava, só jogava por amor

O país de que falo

Era o tal, onde pelo Natal

As crianças tinham esperanças

De receber lembranças

Fabricadas por portugueses

E nunca oriundas das lojas dos chineses

O país deste teorema

E que preside ao meu poema

Tinha uma justiça implacável

E, para quem transgredia

Nunca por nunca era maleável

Os juízes eram francos

E os que roubavam os bancos

Eram condenados

Por esses incomparáveis magistrados

No meu país fantasioso

Não sobrevivia nenhum mafioso

Era um país pequeno

Mas auto-suficiente a todo o terreno

Tinha uma indústria desenvolvida

Por grandes técnicos

E por melhores operários servida

Os lanifícios eram desenvolvidos

E todos os habitantes

Andavam bem vestidos

A pedofilia

Pura e simplesmente não existia

A Igreja

Difundia um respeito de fazer inveja

Não pactuava com valdevinos

Esse país, dispensava os submarinos

E alta noite, horas mortas

Não se ouviam passos

Nem o bater de portas

Os seus habitantes não eram tristonhos

E tal como no Fado dos Sonhos

Desculpem lá, vou terminar

Porque isto era eu a sonhar



JOSÉ GUERREIRO

Oiã, 20/12/2012

















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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

CARTA AO PEDRO (2)

Caro Pedro,

Enquanto desempregado que vai rapidamente ficar sem poder dar de comer aos seus filhos, é-me difícil aceitar que promovas o meu desemprego para que eu aceite ir trabalhar por migalhas que nem chegarão para pagar o mais básico para manter a minha família. Estás a deixar-nos sem lugar nesta sociedade. Estás a condenar-nos à morte.

Gostaria que recordasses que esta minha condição não resulta da minha vontade, pois sou só um meio para que tu atinjas um único fim: baixar os salários de quem ainda trabalha. Resulta sim da tua teimosia, dos teus dogmas, da tua ideologia, das tuas crenças de que a minha morte provocará, por alguma inexplicável razão, o bem-estar dos restantes. Quer parecer-me que é esta a forma que encontras para evitar retirar àqueles que têm dinheiro acumulado e que, não encontrando forma de comprar a minha força de trabalho, não conseguem multiplicar o dinheiro que lhes sobrou. É evidente que preferes gastar dinheiro em bancos, que preferes pagar uma dívida que eu não contraí; que em vez de fomentar a indústria, a agricultura, as pescas ou as minas, preferes ir destruindo cada vez mais postos de trabalho.

O que me estás a fazer é de uma violência mortal. Considero, e tu estarás certamente de acordo, que sou obrigado a fazer tudo aquilo que estiver ao meu alcance para evitar que consigas alcançar o teu propósito.

Quero dizer-te que à medida que se for aproximando o momento da morte da minha família, que menos soluções encontre, que mais dor inflijas à minha família; maior é a probabilidade de pôr em prática tantas ideias que me vão passando pela cabeça e cujo resultado seria que tivesses o mesmo fim ao qual me estás a levar.

Para evitar o que te digo, gostaria que considerasses seriamente a possibilidade de te demitires rapidamente e deixasses o caminho livre à realização de eleições, pois sabes perfeitamente que já não tens o apoio do Povo.

Sinceramente,
Alcides Santos

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