quarta-feira, 29 de outubro de 2008

A ESCOLA PÚBLICA

Por acaso sabem em que escola andam os meninos sócrates? Numa pública? não,
na ESCOLA ALEMÃ!

A ESCOLA PÚBLICA E O FORDISMO, POR LUÍS TORGAL
>
> (Prof. Catedrático da Universidade de Coimbra)


A escola pública morreu, enquanto espaço democrático multifacetado (e
idealista) de instrução científica e artística e de formação cívica — já
oproclamei aqui algumas vezes. Foi abruptamente estilhaçada pelo maremoto
das
desconexas e demagógicas ordenações socratistas de 2008: novo estatuto
doaluno, nova lei sobre o ensino especial, novo regulamento de avaliação de
desempenho docente e novo modelo de gestão escolar. Foi desacreditada pela
propaganda do ministério e da ministra que a tutelam e caiu em desgraça
junto da opinião pública. Foi tomada por demasiados candidatos a futuros
directores escolares embevecidos pelos decálogos de José Sócrates e
inebriados pelas cartilhas sobre as dinâmicas de gestão no mundo
neoliberal – afinal, as mesmas cartilhas que agora puseram o mundo à beira
do caos. Foi pervertida pela imposição, por parte do Ministério da Educação,
de um sistema burocrático kafkiano que visa obrigar os professores a
fabricarem um sucesso educativo ilusório. Foi adulterada por alguns
professores pragmáticos ou desprovidos de consciência crítica, os quais
exibem a sua diligente e refinada burocracia como arma de arremesso para
camuflar as suas limitações científicas, pedagógicas e culturais. E, neste
momento, quando decorrem nas várias escolas eleições para os conselhos
gerais transitórios, está a ser vítima de um já previsível mas intolerável
processo de politização (no sentido mais pejorativo da palavra). Tal
processo é dirigido por forças que em muitos casos se mantiveram durante
anos alheados dos grandes problemas das escolas, mas que na actual
conjuntura encaram estas instituições (outrora) educativas como tribunas
privilegiadas para servirem maquiavélicos interesses de poder pessoal e/ou
de carácter político-partidário.
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> A nova escola pública que está a emergir é uma farsa. Tornou-se um
> território deveras movediço, onde reina uma desmedida conflitualidade (e
> competitividade) social e política e uma grotesca e insuperável
> contradição entre os conceitos de 'escola inclusiva' e de 'pedagogia
> diferenciada'.
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> Nesta instituição naufragaram, entretanto, num conspurcado lamaçal, os
> nobres ideais instrutivos, formativos e educativos. O famoso PC portátil
> 'Magalhães', ofertado em grande escala, numa bem encenada operação de
> marketing, a alunos do primeiro ciclo que cada vez sabem menos de
> Português ou Matemática e utilizam os computadores somente para simples
> divertimento é, de resto, o mais recente exemplo do sentido irreal e
> burlesco das prioridades deste sistema educativo.
>
> A nova escola pública é hoje uma empresa gerida por muitos tecnocratas
> alinhados com a actual ordem política, e equipada por operários que se
> desejam amanuenses servis e catequizados na alegada única ideologia
> vigente (a qual — agora já todos o sabemos — se encontra manifestamente em
> crise). A verdadeira função desta espécie de mal engendrada e desalmada
> linha de
> montagem é produzir, automaticamente, em massa, de forma acelerada, e a
> baixos custos, duvidosos produtos estandardizados. Esta nova escola é,
> afinal, um hino ao velho Fordismo. O tal sistema que venerou o dinheiro
> como deus supremo do homo sapiens sapiens e que projectou um mundo
> sublime, onde o Homem é castrado da sua capacidade cognitiva e coagido a
> demitir-se das suas quotidianas obrigações familiares bem como de outros
> cívicos desígnios sociais em nome do lucro desenfreado (de uns poucos), da
> sobrevivência, doconsumismo e do hedonismo desregrados. Aquele sistema
> perfeito superiormente ironizado por Aldous Huxley ('Admirável Mundo
> Novo') ou por Charlie Chaplin ('Tempos Modernos'), nos anos 30 do século
> XX, que está agora no epicentro de mais um 'tsunami' financeiro de
> consequências imprevisíveis para a humanidade, 'tsunami' esse cujas causas
> são reincidentes e estão bem diagnosticadas. Enfim, aquele implacável
> sistema materialista mecanicista e 'darwinista' cujo modo de vida John dos
> Passos também satirizou, numa obra datada dos mesmos anos 30 ('O Grande
> Capital'), com esta antológicas palavras: 'quinze minutos para almoçar,
> três para ir à casa de banho; potoda a parte a aceleração taylorizada:
> baixar, ajustar o berbequim-acertar a
> porca-apertar o parafuso.
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> Baixar, ajustar o berbequim, acertar a porca apertar o parafuso, até que a
> última parcela de vida tenha sido aspirada pela produção e que os
> operários voltempara casa, trémulos, lívidos e completamente extenuados'.
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> 'Porreiro pá!' Mas, pá, será esta a escola e o mundo que nós desejamos
> para os nossos alunos, para os nossos filhos?
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